Em minha infância sofri abusos, preconceitos, racismo impiedoso por ser pobre miserável, mas ao mesmo tempo, conseguia juntar forças, medindo as consequências, enchia-me de coragem, regendo dentro de mim o poder relevante a cada situação imposta, naquele momento dedicava dirigir os limites de minha consciência. Desbravava cada atrocidade imposta, recorrendo sempre a escuridão. Em exame de consciência aos céus, postando as mãos em perdão contínuo sobre a vista inércia da memória, a culpa era tentar justificar o que me comprometia, para que a tolerância do machismo poupasse cada índole condenada. Minha culpa, minha máxima culpa era aceitar a forma que cheguei ao mundo, cercado de previsões obscuras, na forma de indigente, sem santos e anjos, nem os poderosos. Cresci no cesto vazio em palafitas, vivo em um sono profundo sem esperança de um futuro..., jamais enxerguei quem me viu partindo e me mandou pra cá a fio. Hoje sou um bastardo da literatura anônima, um peregrino imune a ganância alheia, sigo a consciência do abandono, sou a estátua apregoada no dia a dia, ninguém me vê ninguém me serve, pois não tenho identidade sou apenas a caricatura de um servo, sobre o inconformismo do abandono !
                                     Wander Gomes

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